Hora de Ler: A cidade & A Cidade - China Miéville


OLÁ LEITORES DO TEDIO! voltei rapidamente das cinzas pra falar de um livro que li recentemente, mais um da coleção fictícia que só existe na minha mente 'Blind Hare's Weird Books': A Cidade & A Cidade, do China Miéville.


A obra inicia-se quando o corpo de uma mulher assassinada é encontrado na decadente cidade de Besźel, em algum lugar nos confins da Europa, parece apenas mais um caso trivial para o Inspetor Tyador Borlú. À medida que avança a investigação, as evidências começam a apontar para conspirações muito mais estranhas e mortais do que ele poderia supor, levando-o à única metrópole na terra tão estranha quanto a sua; Ul Qoma. As duas cidades ocupam o mesmo espaço geográfico, mas constituem nações diferentes, monitoradas por um poder secreto conhecido como a Brecha. Em ambas as cidades, ignorar a separação, mesmo sem querer, é considerado um crime terrível, mais grave do que cometer um assassinato.  

~ 

Pela sinopse, dá pra ver que é um daqueles romances ambientados em lugares super estranhos no começo mas quando você imersa na história, tudo é super natural e se encaixa no lugar certo.  

O que mais me chamou a atenção nesse livro foi o conceito das duas cidades no mesmo espaço geográfico. Besźel e Ul Qoma, em alguns pontos, compartilham algumas ruas e certos pontos mas existem espaços que pertencem a apenas uma cidade, e atravessar ou interagir com a outra cidade é uma enorme transgressão. Os moradores de ambas as cidades são educados desde a infância a 'desver' o outro lado: pessoas, prédios, carros, crimes etc; qualquer tipo de coisa que pertença ao outro lado deve ser ignorada. Outra coisa interessante (ou assustadora) é que os prédios das duas cidades possuem diferentes arquiteturas, a língua das duas são diferentes, as pessoas se vestem com roupas e se portam relativamente às suas cidades.  

Também existe a questão da Brecha: uma pessoa que transgride as fronteiras está cometendo brecha, e logo é levada pela Brecha. Nunca se soube o que acontece com tais pessoas. Acidentes de trânsito entre as cidades, por exemplo, é considerado brecha e a 'entidade' cuida do tabu, e depois passa a questão para as polícias das duas cidades. 

Passada essa primeira 'camada' das cidades, vem a 'camada' da história em si: a investigação do assassinato de uma jovem, cujo corpo foi descoberto no subúrbio de Besźel. Até aí "tudo bem", até que se descobre que ela vivia em Ul Qoma; como diabos o corpo dela foi parar do outro lado aparentemente sem brecha? A partir daí, Borlú vai descobrindo que o buraco é mais embaixo.  

O autor usa esse "tabuleiro" que criou para escrever criativamente sobre diversos tópicos socioeconômicos: por exemplo, grupos nacionalistas com certo fascismo, grupos nacionalistas meio anárquicos, e a xenofobia das cidades; a questão de refugiados; relações internacionais (não só entre cada cidade, mas também com o restante do mundo) etc.  

Para mim fica complicado falar mais do que isso sem considerar spoiler. O texto é em primeira pessoa (Borlú está narrando a história), e frequentemente rolam infodumps da parte dele. Queria muito falar sobre tudo do livro mas creio que seja melhor para você, leitor, saborear o livro.  

No fim das contas, nenhuma cidade é "inteira". Por exemplo, a minha cidade não é igual a cidade de meu vizinho pois nossos pontos de interesse, relacionamentos interpessoais etc. são completamente diferentes. Posso ignorar diversas coisas que outra pessoa considera aquilo como muito importantes, por desinteresse ou por não querer cruzar minha fronteira. No fim das contas uma cidade é composta de todas as cidades-pessoas que habitam nela, mas desde que algumas fronteiras não sejam cruzadas, não haverão problemas.  

A Cidade & A Cidade é publicado pela editora Boitempo e está disponível nos formatos físico e digital em todo o país.